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Ricardo Chagas fala sobre o saneamento nas terras indígenas

por Beatriz Monteiro e Laura Pimenta

A fim de enriquecer a discussão sobre o saneamento nas terras indígenas, entrevistamos Ricardo Chagas, professor e engenheiro sanitarista do Distrito Sanitário Especial Indígena de Cuiabá (DSEI Cuiabá). Na entrevista, Chagas comenta sobre o acesso à água, ao esgotamento sanitário e a problemática do lixo, enfatizando as peculiaridades dessa população.

 

 

A população indígena, ela tem a sua forma de fazer as suas necessidades e eu tenho que entender esse contexto para poder trabalhar isso, para propor uma tecnologia à ela. (…) De um tempo para cá, na engenharia tem- se trabalhado muito com modelos prontos e acabados e isso é um suicídio técnico.

 

 

ÁGUA

As comunidades indígenas enxergam a água de alguns fatores muitos próprios. Por exemplo, a água de chuva tem um significado pra ela, que é o significado da lua, da época do plantio, da época das mudanças das luas, (…) a formulação da sua roça e das relações que ela [a água] tem. A água do rio, ela tem uma vinculação para a população indígena muito visual, muito próxima, ela serve para brincadeiras, para pesca, congregação da aldeia como um todo.

A água de um poço artesiano profundo não tem nenhum significado para essa comunidade indígena, porque ela não vê. Ela não usa essa água, ela não tem percepção, não faz parte da vida dela. (…) Por que se escolhe um poço para a área indígena, então? Se escolhe um poço porque é um manancial profundo, 60 a 80 metros, que não tem nenhum tipo de contaminação. Mas eu não posso esquecer: aí que vem o problema “tecnicístico” de tudo isso, que desconsidera as outras formas que a população utiliza para sua relação com a água, o que jamais deveria ser esquecido. Então eu tenho que trabalhar como um processo todo, eu não posso trabalhar um problema de abastecimento de água como uma obra de engenharia, e isso é feito hoje como uma obra. Ela é um processo contínuo de relação de interculturalidade com aquela comunidade. Infelizmente, isso ainda não se consegue trabalhar, quer pela formação acadêmica, quer pela baixa compreensão intercultural e por uma posição muito tecnicista da engenharia como um todo.  

 

ESGOTAMENTO SANITÁRIO

Cada aldeia tem a sua particularidade e eu tenho que entender isso de forma muito própria. E, infelizmente, de um tempo para cá, na engenharia tem-se trabalhado muito com modelos prontos e acabados e isso é um suicídio técnico(…) Eu tenho que ouví-la [a comunidade], eu tenho que entendê-la, tenho que entender a forma de vida, tenho que usar a interculturalidade para entender a cultura da comunidade que vai utilizar aquele benefício.

 

Um exemplo disso são os dulos sanitários que a Funasa fazia e colocava nas aldeias. Depois de um tempo, você ia lá vistoriar e via que a população fazia as suas necessidades fora do vaso sanitário. Porque a questão da bacia sanitária, isso é uma coisa nossa, da população não-indígena, isso não é da população indígena. A população indígena ela tem a sua forma de fazer as suas necessidades e eu tenho que entender esse contexto para poder trabalhar isso, para propor uma tecnologia à ela. Quase todas as nossas melhorias sanitárias, os banheirinhos que são colocados na área indígena, não funcionam em função disso. Não foi feito esse trabalho, não foi conversado com a comunidade, não foi ouvida a melhor forma que ela queria.

 

 

 

Continua sendo assim, não só este modelo, mas de uma unidade básica de saúde, de um sistema de abastecimento de água, de um pólo base,. Continuam, ainda, sendo modelos construtivos pensados pela tecnologia estrutural, e não incorporado ao ambiente indígena.

 

LIXO

Quando a gente discute com eles sobre essa questão do lixo, eles não têm essa percepção de que aquilo é um resíduo (…). Difere, por exemplo, da concepção (…) de que, depois que utilizou, aquilo não presta mais. (…) Então, o conceito de lixo [para o indígena] difere do conceito urbanizado de resíduo. (…) E, muitas vezes, por exemplo, eu chegava na aldeia e diziam: “Não, mas isso não é lixo. Isso é garrafa de refrigerante”.

Ele [o indígena] aprendeu com a gente a fazer a queima, não tinha a prática da queima. Inclusive, o fogo tem uma outra interpretação na área indígena. A queima foi introduzida por nós, porque nós não tínhamos o que fazer com esse lixo. (…) Ele percebeu, viu e aprendeu a queima. A primeira coisa que a gente tem que desenvolver e está desenvolvendo é a segregação do lixo.  

Além da entrevista realizada com o engenheiro sanitarista Ricardo Chagas, a equipe PNSR entrevistou também outros importantes atores na defesa dos direitos indígenas, que relataram as condições sanitárias onde vivem e apontaram maneiras para reverter essas realidades. Acesse aqui a matéria completa.

1 Comentário
  • Luiz Carlos Cardoso
    Publicado em 15:58h, 06 Abril Responder

    O saneamento ambiental em sí e coltado as comunidades ditas brancas já tem suas nuances. Em relação ao saneamento em Terras Indígenas há muito a se avançar e ai incluiríamos os quilombolas, os assentados, enfim, muitas comunidades que exigem atitudes diferenciadas, mas tendo como único foco: qualidade de vida com equilíbrio ambiental.
    Nesta entrevista com Sanitarista Ricardo Chegas, talvez pelo espaço resumido para dissertação problemática, nota-se que a situação dos aldeamento com avançado estado de interferência dos costumes brancos, onde os aldeamentos estão localizados muito próximo de aglomerados urbanos.
    Onde sua cultura esta altamente influenciada pelos nossos costumes, consumo e socialização.
    Resta então, avaliar que para cada projeto voltado para estas comunidades que sejam levados em contas sua especificidade e característica local.
    Com isso, pecam aqueles que consideram seus pensamentos conclusivos e acabados. Devem sim, ser sugestivos e sempre com abordagem focando compor uma discussão mais ampliadas.

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