Palavras chave

É preciso eliminar os criadouros através do saneamento básico

De acordo com Constancia Ayres, a única forma de impedir a propagação da zika e da microcefalia é investindo em saneamento.


por Alan Tygel, Brasil de Fato

Uma nova descoberta científica pode alterar toda a estratégia do controle do vírus da Zika no Brasil. Estudos realizados no Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz, em Recife, mostram que o mosquito Culex, conhecido como pernilongo ou muriçoca, também transmite o vírus da Zika, responsável pelos casos de microcefalia. Com isso, todas as estratégias de baseadas no uso de agrotóxicos inseticidas ou mosquitos modificados ficam sem sentido, e o saneamento básico passa a ser a única opção.

O Brasil de Fato entrevistou Constancia Ayres, coordenadora desta pesquisa, para entender porque esta descoberta é tão importante, e porque tem havido um grande bloqueio nas revistas científicas à divulgação destes resultados. Constancia Ayres é pesquisadora titular do Departamento de Entomologia (estudo de insetos) do CpqAM/Fiocruz/PE, atualmente no cargo de vice-diretora de ensino.

Brasil de Fato –  O que fez você suspeitar que o mosquito Culex, também conhecido como pernilongo ou muriçoca, poderia transmitir o vírus daZika?

Constancia Ayres – Quando a epidemia começou, aqui em Recife, o padrão de transmissão e a rapidez com que o vírus estava se dispersando me chamou a atenção. Para ser um vírus transmitido exclusivamente peloAedes Aegypti, estava fugindo do padrão observado em outros arbovírus (vírus transmitidos por mosquitos) que tem o Aedes como vetor principal, como a Dengue a Chikungunya. Um número alto de casos estava acontecendo num espaço muito curto de tempo.

Então eu fiquei intrigada com essa questão e resolvi ler um pouco a literatura sobre o processo de incriminação do Aedes Aegypti como vetor principal da Zika. Eu queria saber quais eram as provas que se tinha de que realmente era o Aedes Aegypti. E quando eu comecei a ler, percebi que de fato as evidências não existiam. Pelo menos não da forma como a gente espera dentro do método científico, seguindo todos os critérios.

Na Micronésia, onde ocorreu a primeira epidemia de Zika em ambiente urbano, eles tentaram identificar o vetor, e o Aedes Aegypti é ausente naquela região. Em algumas ilhas da Micronésia ele era completamente ausente, e nas ilhas em que ele existia, era extremamento raro. Então ele não poderia ser o responsável pela infecção de 70% da população humana, como ocorreu. Eles tinham outras espécies de Aedes, mas viram que todas as amostras que eles analisaram eram negativas. Então não foi achado o vírus no vetor. E isso é um dos requisitos que você precisa ter para incriminar a espécie como vetor.

A segunda epidemia foi na Polinésia Francesa, e ocorreu a mesma coisa. Os pesquisadores coletaram  amostrar de Aedes, e não acharam na verdade nenhum positivo, quando 90% da população estava infectada. Então como é possível, no meio de uma epidemia, não achar o vetor com vírus?

Cheguei à conclusão de que na verdade outras  espécies poderiam estar implicadas na transmissão, e que essas espécies haviam sido negligenciadas ao longo da história do conhecimento de Zika.

O Culex é uma espécie abundante em praticamente todas as áreas do globo, inclusive Polinésia e na Micronésia, mas ele não foi investigado. E aqui em Recife o que a gente mais tem? Culex! Inclusive muito mais do que Aedes. Então eu passei a querer investigar essa possibilidade.

A outra questão é que o Culex já é vetor de outros arbovírus, como o Vírus do oeste do Nilo, o Vírus da Encefalite Japonesa, o Vírus da Encefalite Equina, que são vírus neurotrópicos, que causam manifestações neurológicas, assim como o Zika.

O Aedes transmite mais vírus hemorrágicos, como a dengue e a febre amarela. Então o Zika é mais próximo filogeneticamente dos vírus que oCulex transmite do que dos vírus que o Aedes transmite. Foram muitas sugestões, e eu resolvi investigar.

Brasil de Fato –  Como foi então o processo de pesquisa?

A gente coletou o Culex, e começou a fazer infecção artificial em laboratório para ver a suscetibilidade do mosquito ao vírus. E comprovamos em laboratório que o Culex tem a mesma capacidade que oAedes de transmitir o vírus. Os dois apresentam competência vetorial. Mas para comprovar que o Culex é vetor, ainda era necessário achar ele em campo infectado, e conseguimos.

A gente foi a campo, na casa das pessoas que estavam notificando casos de Zika. A Secretaria de Saúde coletou amostras e mandou pra gente, e de fato conseguimos identificar o vírus em amostras de Culex de campo. Isso fecha o ciclo que mostra que ele é vetor.

Para comprovar isso, é necessário ter repetidas provas da associação dos casos clínicos com o vetor infectado no ambiente. Até agora conseguimos achar aqui em Recife e no Espírito Santo. Mas já há relatos no Equador, e mais pesquisas estão sendo feitas.

Brasil de Fato –  Recentemente saíram pesquisas dizendo justamente o contrário do seu estudo, ou seja, que o Culex não transmite a Zika…

Quando a gente começou a levantar nossa hipótese, outros grupos começaram a investigar e mostraram em laboratório que o Culex não tem competência para transmitir a Zika. Nesse meio tempo a China publicou um artigo em que mostram que conseguiram infectar o mosquito Culexcom o Zika, e botaram esse mosquito infectado para se alimentar em camundongos, e os camundongos adoeceram. Então, isso comprova que oCulex de fato consegue transmitir.

Cinco ou seis trabalhos foram publicados de forma muito rápida, mostrando resultados negativos. A única conclusão que eu posso chegar é que ou eles utilizaram metodologias diferentes, que podem dar resultados diferentes, ou a linhagem de vírus que eles utilizaram, com a combinação da colônia de mosquitos que eles usaram não apresente uma boa combinação que propicie a transmissão.

Agora, na ciência, resultado negativo significa o quê? Pode significar mil coisas! Que você não utilizou um método adequado, ou que você não analisou amostras suficientes, ou que utilizou um material diferente… Já um resultado positivo ele é comprovação, é você demonstrar o fenômeno que ele é possível.

Eu não teria coragem de, com um resultado negativo, dizer: é impossível que Culex transmita. Mas quando eu tenho um resultado positivo, eu digo que é possível. Porque aconteceu. Então essa questão dos resultados conflitantes merece especial atenção, porque eles estão dando pesos iguais, quando o resultado positivo é que tem que ter um impacto maior.

Brasil de Fato –  Mas qual é a diferença tão grande entre os dois mosquitos, que torna este resultado tão relevante?

É revelante porque hoje não existe nada no Brasil para controle de Culex. Aqui em Recife até existe um programa de controle por conta da filariose, doença cujo Culex é vetor, e é bem focal e pouco distribuída. Mas no Brasil todo não existe.

Então se a gente diz que não é só o Aedes que transmite Zika, existe alguma outra coisa a mais que precisa ser controlada, em termos de gasto público. Para se construir um programa do zero, tem um impacto absurdo.

Em segundo lugar, o Culex tem um hábito diferente do Aedes. O Culex põe os ovos em água preferencialmente muito poluída, que são as fossas e os esgotos. Isso significa que o governo teria que fazer saneamento básico, que é um problema negligenciado historicamente no nosso país.

Walter Campanato / Agência Brasil 

Brasil de Fato –  Hoje em dia, o controle do Aedes é feito em grande medida com uso de agrotóxicos, inclusive o Malathion, considerado provavelmente cancerígeno. Esses venenos teriam efeito no Culex?

Manter o Aedes como vetor exclusivo da arbovirose é confortável. Assim a gente alimenta a indústria desses inseticidas químicos, e várias outras como a dos mosquitos transgênicos, mosquitos infectados com Wolbachia, mosquito estéril… Há toda uma estratégia que hoje é desenvolvida para oAedes.

Mas não tem nada voltado para o Culex. Então teria que desviar os recursos que são investidos para esse tipo de projeto de estratégia…

É aquilo que eu estou cansada de dizer: o mosquito está no ambiente por uma única razão: o ambiente propicia condições favoráveis para o mosquito se reproduzir. Então a gente não tem que atacar o mosquito, devemos cuidar do ambiente.

É um absurdo pulverizar agrotóxicos. É preciso eliminar os criadouros através do saneamento básico.

Brasil de Fato –  O estudo tem implicações em reação à dengue?

A gente sabe que o Aedes é o principal vetor de dengue, mas existem trabalhos que mostram o Culex carregando o vírus. Se isso é possível de acontecer no ambiente natural, a gente não sabe. Não foi investigado. Muito possivelmente não, porque os estudos iniciais, eu acredito que devem ter testado o Culex também.

Mas o vírus é um organismo extremamente mutante, se adapta, então tem que ser levado em conta constantemente essas possibilidade.

O Zika já mostrou que pode ser transmitido por via sexual, da mãe para o filho, leite materno, transfusão sanguínea, então é um vírus altamente mutante e se adapta muito rápido. Não podemos nos acomodar e ficar presos a modelos antigos, de dizer que é só um mosquito, é um só vetor, e só ele transmite e só existe essa forma de transmissão. Senão teremos esse impacto de forma drástica, como aconteceu a epidemia de microcefalia.

Brasil de Fato –   Como é a estrutura disponível para sua pesquisa?

Aqui no CPqAM/Fiocruz temos uma infraestrutura muito boa, e uma equipe muito boa. Mas trabalhar com esse vírus requer recursos, precisamos comprar kits que são extremamente caros, para extração de RNA, detecção da presença do vírus, sequenciamento do genoma, e isso realmente atrasou bastante a nossa pesquisa.

Brasil de Fato –  Como tem sido a divulgação da sua pesquisa?

Eu sempre tive muita aversão à mídia. Acho que todo cientista tem um pouco de medo. Por conta de estar em evidência, de divulgar a pesquisa e de ser mal entendido e mal interpretado. Quase sempre a mídia quer que a notícia que seja polêmica, interessante, e nem sempre diz aquilo que a gente repassou.

Mas nesse caso eu tenho que admitir que a mídia trabalhou como uma parceira, porque ajudou a divulgar de forma mais rápido o trabalho, e ajudou a levantar essa hipótese.

No meio científico, o artigo não foi publicado, não foi aceito. Estamos sofrendo bastante resistência em relação a isso, apesar de não ter nenhuma crítica técnica ao trabalho.

Brasil de Fato –  Mas então por que foi rejeitado?

(risos) Interesses, eu acredito. Não sei, não teve até agora nenhuma crítica à parte técnica, à parte científica. As revistas disseram: “a gente não tem interesse”, “a gente não quer”, “não tem espaço”, assim por diante. Ao mesmo tempo, esses outros artigos que mostram que o Culex não é vetor foram publicados de forma extremamente rápida. Existe de fato um interesse em querer divulgar notícias que corroboram a hipótese de que oAedes é vetor exclusivo, o que pra mim é uma hipótese simplista para um vírus tão poderoso como a gente está vendo aí.

Brasil de Fato –  O Brasil está investindo em construir uma fábrica de mosquitos infectados com uma bactéria que impede a contaminação com o vírus. Qual sua opinião em relação a isso?

É uma estratégia altamente tecnológica, sem levar em conta as condições ecológicas, as condições ambientais sociais, que pra mim são determinantes na transmissão dessas doenças. A gente vê inclusive pela que os casos de microcefalia estão concentrados em uma população bastante carente, onde não tem saneamento básico.

Em vez da gente tratar o ambiente, que melhoraria a qualidade de vida dessas pessoas, a gente trata o mosquito, e investe milhões em estratégias que, desde que se faz controle aqui no Brasil pra Aedes, não têm sucesso. Tanto é que os casos de dengue só aumentam.

Eu visitei uma cidade Tocantis chamada Gurupi, que fica a 300km da capital Palmas. O município é totalmente saneado, a população toda tem acesso à água, e não chove, e eles tem zero casos de Zika, Chikungunya, de Dengue, essas doenças todas, por conta da ausência dos criadouros. São eles que propiciam a proliferação do mosquito. Obviamente fica claro que se a gente tratar o ambiente, a não tem essas doenças. Não precisa investir nessas estrategias mirabolantes pra controle do mosquito.

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